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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Além da Linha Vermelha: O míssil intercontinental da Coreia do Norte

Na manhã do dia 04 de julho, enquanto os Estados Unidos se preparavam para as comemorações do seu Dia da Independência, a Coreia do Norte comemorava um marco próprio: seu primeiro teste de um míssil balístico intercontinental. A escolha da data, como em eventos semelhantes anteriores, não é casual. Com este novo teste, a Coreia do Norte demonstrou seu comprometimento com o objetivo, muitas vezes proclamado por Kim Jong-Un, de obter a capacidade de alcançar o território estadunidense e manter a população americana refém contra o intervencionismo de seu governo.

O míssil testado, um Hwasong-14, atingiu um ponto a menos de 1000 km de sua base de lançamento, mas as características de sua trajetória sugerem um alcance máximo superior a 6000 km. Com isso, a Coreia do Norte conseguiria alcançar todo o território do Alasca e, portanto, atingir os Estados Unidos em sua própria casa. Assim, uma linha vermelha simbólica parece ter sido cruzada.

A obsessão coreana com mísseis e explosivos nucleares é, pelo menos parcialmente, motivada pelo seu contexto de insegurança frente à imagem de um inimigo incomparavelmente superior do ponto de vista militar. De fato, não é difícil encontrar precedentes que apontam a disposição estadunidense em se engajar em projetos de mudança de regime, como exemplificado pelas experiências do Iraque e da Líbia.

Por isso, ainda que fatores domésticos tenham, inevitavelmente, um peso massivo sobre a condução política do regime de Kim, a capacidade de dissuadir intervenções externas parece ser fundamental para o planejamento estratégico norte-coreano. O que nos leva à pergunta: a Coreia do Norte já tem capacidade militar suficiente para desencorajar intervenções? 

A resposta para essa pergunta não é simples, já que ela depende de fatores que vão além da mera contabilização de armamentos. A capacidade de dissuasão de um país depende não apenas do arsenal que o protege, mas da disposição de seus inimigos a incorrem em perdas materiais e humanas e a arcarem com os custos políticos de uma possível retaliação. Mesmo frente a uma capacidade de destruição opressiva, povos podem escolher lutar, se as causas que motivam essa luta forem consideradas valiosas o suficiente.

Por outro lado, caso os objetivos que motivam uma guerra forem percebidos como marginais, mesmo custos pequenos podem ser suficientes para desencorajar a via militar. 

Este parece ser o caso aqui. Enquanto a Coreia do Norte mantiver sua capacidade militar apenas como uma garantia contra intervenções externas, os Estados Unidos têm poucos incentivos para lançar uma campanha militar na região. De fato, o governo americano teria grande dificuldade em justificar, perante sua população, uma investida que poderia resultar em um ataque retaliatório, mesmo que esse ataque atingisse apenas a pequena população do Alasca.

O que fica claro é que, ceteris paribus, a capacidade militar da Coreia do Norte continuará avançando. A menos que haja mudanças expressivas, o governo de Kim não tem incentivos claros para frear seus projetos mais prestigiosos. Essas mudanças podem ser internacionais, com uma alteração na postura da China ou dos Estados Unidos; ou podem ser domésticas, com alguma reviravolta imprevista nos jogos de poder internos ao regime. Mas, sem mudanças no contexto, tudo aponta para um resultado provável: uma Coreia armada com mísseis e ogivas nucleares suficientes para abalar a tranquilidade de americanos, chineses, japoneses e, sem dúvida, dos próprios coreanos.

Raquel Gontijo é Doutoranda em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP), Pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e Professora de Relações Internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

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