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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Outra Companhia estreia As paredes escondem o que não é dito

Um prédio antigo que dizem ser assombrado chama a atenção de repórteres convidados a entrevistar sua proprietária prestes a morrer. Imersos em seus cômodos, são envolvidos pelos dramas familiares descascados em escadas, corredores e paredes mofadas. Uma queda de luz súbita evidencia os jogos de poder e revela como os afetos são aprisionados na sombra do silêncio deste lar.

Como quem coloca uma lente de aumento, A Outra Companhia de Teatro convida ao público a assistir de 8 a 18 de agosto, na Casa d’A Outra, às 20h, ao espetáculo As paredes escondem o que não é dito: BEM-VINDOS!, resultado do Laboratório de Atores, ação de formação do projeto ENXERGUE! sonhos, memórias e declarações d’A Outra Companhia, que conta com o apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), da Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, aprovado no Edital Setorial de Teatro 2016.

A montagem leva o espectador a uma realidade fantástico conduzindo-o a enxergar as entranhas da família brasileira atravessada pelo medo e pânico da violência fora de seu lar “seguro”, ao passo que se implode por heranças, poderes, hierarquias que insistem em manter as categorias sociais distanciadas e ressecadas pelos afetos. São 20 atores em cena, dirigidos por Luiz Antônio Sena Jr., com dramaturgia de Luiz Buranga.

Criando cenas hibridas com a realidade, A Outra Companhia de Teatro faz ainda um convite ao espectador a olhar para o centro de Salvador, trazendo referências a respeito do bairro do Politeama, onde fica localizada a sede do grupo. “Cuidado, às vezes, a noite começa e não termina para algumas pessoas”. “Bairro jogado às traças”. “Que absurdo mamãe. Agora eu tenho que ficar preso enquanto marginais ficam soltos matando por aí”. São algumas das frases ditas pelas personagens.

“Essas falas especificam nosso olhar para o local onde residenciamos nossas atividades, mas também é uma reflexão para todos que, independente de bairros, vivem uma situação real de medo e pânico pela violência instaurada, que aprisiona pessoas em condomínios e grades”, pondera o diretor da montagem.

O dramaturgo, que também assina o figurino, cenografia e adereços, explica que “A Casa da Ilha (nome original da peça encenada) conta a história de uma família em decadência, cheia de segredos, rancores e problemas mal resolvidos". O que está indo a cena é uma releitura “do meu texto pelas mãos de Luiz Antônio, com muita maestria que lhe é peculiar na função de diretor”, destaca Buranga.

“Nosso diálogo é horizontal. Ele escreveu uma obra e, a partir dela, tenho adaptado a realidade dos alunos, reescrevendo algumas cenas, cortando outras, desdobrando personagens. Mas tudo sem mexer no eixo da história, mantendo a autoria dele e assegurando as escolhas da linguagem cênica desenhada na encenação por mim”, ressalta Luiz Antônio Sena Jr.

Partindo de elementos concretos, A Outra Companhia brinca com o realismo fantástico, despertando uma multiplicidade de sentidos nas pessoas. “Estamos investindo numa obra itinerante e sensorial, para que as pessoas não sejam envolvidas só pelo discurso, mas pela experiência de entrar nessa casa, de descobrir esse lugar no escuro, o cheiro que sai da cozinha, o mofo, os sons. Nós temos investido cada vez mais numa pesquisa que atravesse o espectador através de uma vivência, desconstruindo esse papel de quem apenas assiste a obra, no escuro do teatro, passivamente", descreve Luiz.

Nesse sentido, o grupo valoriza as possibilidades sonoras do espaço (o Edifício Centro Comercial Politeama), aproveitando a acústica dos corredores, os ruídos que as portas e portões produzem, para que crie a atmosfera de tensão da peça. “O grande trabalho da direção musical nessa peça é tentar equilibrar essas forças entre o que criamos (músicas, sonoridades e canções) e o que o ambiente nos fornece. Pensando dessa forma, toda a peça, inclusive os seus silêncios, compõem uma grande música que vai do início ao fim”, explica Roquildes Júnior, que assume a direção musical.

Um outro ponto a ser destacado é a corporalidade das personagens que sublinha as marcas físicas do tempo e as hierarquias das relações sob os mesmos. A preparação física conduzida por Anderson Danttas e Israel Barretto cria uma realidade extra cotidiana, reforçando o lugar do realismo fantástico proposto pela direção de Luiz Antônio Sena Jr.

“Não é somente como a gente traduz uma realidade. A gente sobrepõe, inclusive na fala, no corpo, no jogo, na reação. Essas camadas servem para que a gente tenha uma poética, um alargamento, um aumento de lente. Os meninos (Anderson e Israel) conduziram um trabalho ligado ao grotesco, ao animalesco, que parte do instinto, dos sentidos, dessas camadas mais interiores, contando ainda com a ajuda de Thiago Romero que convidamos para fazer um laboratório de composição de personagens”, explica o diretor.
  
Ele realça que o trabalho com os atores do Laboratório tem sido um desafio, “pois eles têm formações muito diversas, não só artísticas, mas também humanas”. “Isso é maravilhoso, por que nós d’A Outra também somos bem diferentes. Ao passo que, a gente conduz uma formação para eles, acabamos nos enxergando e nos reformando. É de fato uma via de mão dupla, quase um espelho”, exclama.


Serviço
O quê: As paredes escondem o que não é dito: BEM-VINDOS! - Laboratório de Atores
Quando: 8 a 18 de agosto, às 20h
Onde: Casa d’A Outra – Rua Politeama de Cima, Centro Comercial do Politeama
Entrada: Pague Quanto Puder

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