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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Teatro Sesc Senac Pelourinho recebe projeto NATAS EM SOLOS em novembro

Grupo afro-brasileiro de teatro apresenta seis olhares sobre o mundo
           
O Núcleo Afro-Brasileiro de Teatro de Alagoinhas volta a Salvador para apresentar o Natas em Solos – Seis Olhares Sobre o Mundo, ação com 06 espetáculos solos interpretados pelos atores Antônio Marcelo, Daniel Arcades, Fabíola Júlia, Nando Zâmbia, Sanara Rocha e Thiago Romero, que faz parte do OROAFROBUMERANGUE. Esse projeto conta com o apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura da Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, aprovado no Edital Setorial de Teatro da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), ocorrerá de 09 a 18 de novembro (quinta-feira, sexta-feira e sábado, às 20h), no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

O Natas em Solos é um projeto artístico-investigativo-formativo que consiste apresentação de seis solos concebidos e realizados pelos intérpretes/criadores do NATA a partir das pesquisas cênicas individuais destes artistas. “O Natas em Solos visa potencializar o interesse e as necessidades individuais de cada intérprete, enriquecendo-o e ampliando nossos horizontes artísticos criativos”, declara Fernanda Júlia, coordenadora artística do grupo.

O público poderá conferir no Teatro Sesc Senac Pelourinho os espetáculos As Balas Que Não Dei Ao Meu Filho de Antônio Marcelo (09/11), Iyá Ilu de Sanara Rocha (10/11), Impopstor de Daniel Arcades (11/11), Mundaréu de Thiago Romero (16/11), Rosas Negras de Fabíola Nansurê (17/11) e Gbagbe de Nando Zâmbia (18/11). Os ingressos das apresentações estão a preços populares R$ 20 e R$ 10,00. O Natas em Solos – Seis Olhares Sobre o Mundo e o OROAFROBUMERANGUE têm a produção executiva da Modupé Produtora.

Solos
O primeiro solo a se apresentar é As Balas Que Não Dei ao Meu Filho, no dia 09 de novembro, com o ator Antônio Marcelo, com direção de Antônio Fábio e dramaturgia de Daniel Arcades. Um homem negro, pai, morador de periferia, policial. Ocorre uma ação policial no bairro onde vive e o filho adolescente desaparece. Este é o mote da dramaturgia deste espetáculo que se constrói através do tempo e do caráter épico.

O texto sai do caráter performático e da corporeidade e potência que é o corpo negro, comum nos trabalhos do NATA, para um solo com foco na interpretação prioritariamente realista. O conflito busca refletir sobre o genocídio da juventude negra nas periferias das grandes cidades e mostra ainda como o sistema racista coloca negros para assassinarem negros.


Daniel Arcades reforça que ao escrever o espetáculo pensou numa dramaturgia onde a complexidade do policial fosse discutida. “Em nenhum momento quero colocar o policial na posição de vítima, nem justificar uma chacina, mas complexificar o homem negro que está naquela situação, coloca-o no local de vítima e algoz da situação. Se esse jovem negro que é morto em chacinas, for parente de quem o assassina, o que acontece?”.

Tambor
Uma performance de pouco texto e muitas palavras. A água que conta as histórias das yabás, dos corpos negros naufragados no atlântico e dos fluídos corporais que expressam sentimentos. O som do tambor que cria imagens ancestrais. As cores futuristas em desenhos ancestres. Os drives sonoros percussivos. Esse é um pequeno resumo do espetáculo solo IYÁ ILU, ritual afro futurista de saudação a Ayan – a deusa do tambor, da atriz e musicista Sanara Rocha, com direção de Andrea Martins, a ser apresentado no dia 10 de novembro.

O solo propõe uma discussão com o universo da musicalidade nas cerimônias sagradas, que interditam a presença feminina a frente dos tambores sagrados. Questiona as “tradições” e procura estabelecer diálogos com a tradição e a contemporaneidade. A partir desse desejo, Sanara Rocha se debruça no mito de Ayan e na invenção do tambor batá de culto a Xangô, que deu origem ao candomblé no Brasil.

“Em Corpo e Ancestralidade de Inaycira Falcão, a autora nos explica que Ayan era uma mulher errante, que andava para cima e para baixo com um tambor de couro ruim. Exu lhe presenteia com o couro certo e, a partir de então, ela tocou de uma forma tão eximia que todo mundo se encanta e o próprio Xangô, que a leva para tocar no culto dele”, conta.

O espetáculo traz para cena o teatro pós-dramático e performático alinhado com conceitos “afro-centrados, que dialogam com a produção contemporânea negra”, como o afrofuturismo. “Tina Melo, que concebe a maquiagem corporal, trouxe a mistura dos adinkras (desenhos africanos) com cores neon; Andrea Martins, que é minha colaboradora poética, produtora musical e também compositora musical deste projeto, combinou a música percussiva (orgânica) com a eletrônica”, reforça Sanara Rocha.

Mercado da fé
Já o solo de Daniel Arcades, ator e dramaturgo de Impopstor, “é um alertar para a mistura da fé com o mercado”. Não é um espetáculo sobre religião, é um manifesto contra os impostores da fé. O monólogo a ser apresentado no dia 11 de novembro, tem direção de Susan Kalik e chama atenção para os líderes religiosos e o quão perigoso pode ser colocarmos pessoas que usam a religiosidade como força de poder e manipulação.

Impopstor é um stand-up com personagem. Tem elementos de comédia, de musical e o uso de tecnologia. Só não tem uma história. O público é convidado a ver alguns momentos do talk-show de Luttero Lucius e alguns momentos de seus bastidores. É uma lente de aumento nos impopstores da fé, esses sujeitos que querem mais ser popstars a religiosos

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Daniel Arcades conta que Impopstor é um espetáculo sobre sujeitos que utilizam a fé como um mercado. “Acho que é bom dizer que tem a ver com a espetacularização da fé”, realça.

 “É importante lembrar que o Brasil é um país laico, que somos um povo formado por muitas religiões e religiosidades e que o religare com Deus ou qualquer outra força divina só pode te aproximar do amor, da união, do respeito. Qualquer fé que te leve a intolerância e violência, não é de Deus não”, ressalta a diretora Susan Kalik.

Mulher negra
Rosas Negras é uma dramaturgia de Fernanda Onisajé, interpretado por Fabíola Nansurê, a ser apresentado no dia 16 de novembro. É um espetáculo para falar da mulher negra do ponto de vista das vitórias.
“Aborda questões que nos machucam, mas de modo a mostrar como vencemos todas essas barreiras e como estamos desenhando o nosso futuro. Rosas Negras parte da vontade de querer me ver em cena no parâmetro da vitória”, declara Onisajé, que também assume a coordenação artística do NATA.
Este solo é uma ode à afirmação da autoestima da mulher negra em todas as instâncias. Onisajé buscou referência a respeito das Yamis, mães ancestrais, fonte primeira do poder feminino. No Candomblé, existe uma cerimônia no processo de iniciação onde o poder feminino é representado por estas divindades.

O texto é um ritual de saudações a elas e a todas as Yabás. “Juntei esse ritual com as histórias de mulheres negras que tanto contribuíram na luta por nosso empoderamento e emancipação, faço uma homenagem a elas todas citando algumas delas no texto do espetáculo”, pontua a dramaturga.
A respeito desse preito, Fabiola Nansurê fala que é uma satisfação imensa trazer a “voz de nós mulheres negras”. “Não é um clichê quando falamos que juntas somos mais fortes e que representatividade importa. É na infância que podemos plantar a semente da autoestima e da referência”, completa.

Cultura Popular
Parceiros em vários trabalhos teatrais, Daniel Arcades, dramaturgo, e Thiago Romero, interprete, se juntaram novamente para caminharem pelo interior do Brasil para falar sobre sonhos, saudades e o ato político de amar. Este é o fio condutor de Mundaréu, espetáculo que será apresentado no dia 17 de novembro.
Inspirado no universo literário de escritores como Guimarães Rosa, Mia Couto, José Eduardo Agualusa e em manifestações da cultura popular brasileira, Mundaréu é um convite a acompanhar as andanças da personagem Cascudo, que carrega os sonhos dos inventados.
Memória, partidas, saudades, ancestralidade e encontros são mais importantes que o percurso feito pelo andarilho durante a peça. Em Mundaréu, o interior ganha uma outra conotação, não é somente as estradas percorridas, é o nosso inconsciente, nossos desejos e sonhos.
“Nasci no interior do Rio de Janeiro. Mais tarde, formado em história da arte, caminhei pelo interior do Brasil para conhecer nossa cultura popular e desembarquei em Cachoeira, na comunidade Kaonge. Passei pelo distrito de Acupe, em Santo Amaro, onde conheci o “Nego Fugido”. Quando o NATA veio com a história dos solos, eu pensei: vou fazer um espetáculo falando sobre o interior, desse universo que vivi em Cachoeira”, recorda Thiago Romero.
Daniel escreveu um texto lindo provocado pelo Nego Fugido e criou o Cascudo, uma pessoa que carrega os sonhos. “Daniel pegou várias referências que lhe trouxe e escreveu uma dramaturgia rica em cultura popular, com uma personagem que fazia várias jornadas pelo interior da Bahia”, conta.
Daniel Arcades fala que esse homem, Cascudo, que vaga carregando sonhos é uma maneira de pensar na simplicidade dos sonhos de tanta gente, contra a lógica do mercado que nos leva a sonhar bens materiais e de consumo. Mundaréu não é Cachoeira e Cascudo não é um tipo nordestino.
“O sentido interior que Mundaréu traz é mais amplo. É o olhar para dentro. Falo muitas coisas minhas, das inquietações minhas e das pessoas. É difícil lidar com os sonhos e desejos das pessoas e com as suas saudades. Isso é o Mundaréu”, enfatiza Arcades.
Ancestralidade
Já ouviu falar da Baobá? No “Ritual da Árvore do Esquecimento”? Esse ritual foi feito por séculos pelos colonizadores para que homens e mulheres que seriam escravizados, antes de serem retirados de África. Os homens eram forçados a dar nove voltas e as mulheres sete para deixarem suas origens, culturas e religiosidade.

Esse é o ponto de partida para GBAGBE, título do trabalho cênico desenvolvido por Nando Zâmbia, com direção de Fábio Vidal e texto de Daniel árcades, que estará em cartaz no dia 18 de novembro, no Teatro Sesc Senac Pelourinho. GBAGBE é uma palavra em yorubá e quer dizer esquecimento.
O solo é uma provocação ao sujeito negro, fazendo-o pensar no que é ser negro na contemporaneidade e o “que quiseram que esquecêssemos”, elaborando um pensamento sobre os rituais contemporâneos impetrados cotidianamente que continuam a propor o abandono da ancestralidade.

 O espetáculo estabelece ligações com o ritual da "Árvore do Esquecimento" e traz à cena reflexões sobre o tempo, memória, ancestralidade e contemporaneidade, afirmação e afro-brasilidade. “Com essas duas inquietações, cheguei ao ritual do Orukó, onde encontramos uma forma de repatriamento e conexão com tempos remotos”, desta o ator.

Tendo em vista que era muito amplo o caminho até o "repatriamento", Nando Zâmbia, Fábio Vidal, Daniel Arcades e a equipe de Gbage buscam colocar em cena o esquecimento como metáfora para localizar o nosso atual momento, friccionando os atuais rituais de esquecimentos que são impostos. A peça fala principalmente de ancestralidade e de como ela salta de “você rumo a você mesmo”.

O espetáculo se constrói na relação entre "cotidiano" e "ritual/encontro", entre o personagem e a "árvore das memórias". Esses dois planos seguem em paralelo até que se torna inevitável o afunilamento e eles se cruzam provocando uma revolução no personagem que começa a ter contato com sua história, a partir de uma nova relação consigo mesmo.

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