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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Atravessando a rua


Em Leme-SP, as ruas não eram asfaltadas até a década de 1950. Na infância, lá vivida, conhecemos a temida poeira azul. Era resultante da mistura do pó azul dos pedriscos triturados de piçarra com a terra vermelha e se levantava em ondas por três motivos. Um, muito raro, era a passagem de um carro – evento excepcional naquela época; duas outras causas de poeira alta eram mais comuns e aconteciam quando passava uma tropa de bois ou quando ventava muito forte na cidade. Há um motivo por estar falando disso.

É que me lembrei de quem morasse nas proximidades da Santa Casa, como nós, sabia exatamente quando iria acontecer uma cirurgia naquele hospital tradicional. O interessante é que, lá em casa, as crianças eram sempre alertadas para a passagem dos carros velozes, frequentemente dos médicos. Havia uma importante razão para isso.

Como os médicos eram os poucos a possuir carro, a ordem da mãe era recolher as roupas do varal quando um deles passasse em frente de casa. Subentendia-se que eram daqueles que passavam sempre ‘voando’ e, portanto, só podia significar que haveria uma cirurgia no hospital para salvar vidas. Mas, para nós, importava que atrás do carro viria uma enorme onda de poeira azul que, previsivelmente, inundaria todas as casas do percurso.

Foi assim que aprendemos a cuidar da higiene das roupas lavadas, protegendo-as da contaminação poeirenta sempre que houvesse uma enorme onda visível de poeira se aproximando após a passagem de algum automóvel ( como se dizia ).
Por isso, a chegada do limpo asfalto foi saudada com muita alegria.

Com a melhoria das vias públicas, as urgências hospitalares eram ainda mais rapidamente atendidas pelos eficientes e renomados clínicos e cirurgiões de Leme, felizmente. Isso resultou em nova recomendação para nós.
A nova ordem da mãe foi que atravessássemos a rua com muito mais cuidado. Vai que houvesse uma cirurgia no hospital...

Houve evolução, entretanto. Hoje, atravessamos as ruas da vida com extremo cuidado justamente para não virar motivo de corrida médica... e voltarmos ao pó da terra.

Haja cuidado!

Francisco Habermann é médico e professor da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu e Membro correspondente da Academia Botucatuense de Letras. Contato: fhaber@uol.com.br

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