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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Artigo: Os recentes conflitos raciais nos EUA e o terrorismo em Barcelona

Os recentes conflitos nos Estados Unidos, em que manifestantes saíram às ruas para proclamar a supremacia dos brancos e para confirmar o apoio às bravatas retóricas de Donald Trump, foram minimizados por autoridades públicas americanas, mas deveriam nos convidar, mais uma vez, a uma reflexão séria sobre a natureza do preconceito racial. Do mesmo modo, parte da mídia procurou “liquidar” a questão do terrorismo, com os recentes atentados em Barcelona, como uma mera questão de prevenção e de barreiras em calçadões ou em praças públicas.

         Certamente não é com o “political correctness” que se acaba com o racismo. Deixar de usar termos supostamente ofensivos para denominar esta ou aquela etnia não apenas não resolve o problema, como também pode dar a muitas pessoas a ilusória sensação de que se “fez justiça”. Também não é com cotas nas universidades públicas ou em outras instituições. Pouco eficazes demonstram-se inclusive os serviços de inteligência policial e atitudes preventivas, como os obstáculos em vias públicas, pois não conseguem debelar definitivamente manifestações violentas de protesto que desembocam em atos insanos onde quer que se encontrem os supostos inimigos desses grupos.

         Sabe-se muito bem o que provoca a onda de terrorismo atual. Ainda que confusa e vagamente, os que reivindicam os atentados se arvoram em defensores da causa árabe e apontam Israel e seus aliados como inimigos. Mesclam desejos de vingança por militantes mortos no passado com apelos a uma guerra santa em nome de uma fé interpretada de maneira capciosa e distorcida.

         No entanto, para enfrentar definitivamente as causas seria preciso mexer em questões espinhosas, como, por exemplo, a intransigência de Israel que prefere o recurso às armas a ceder em questões territoriais e outras mais que vão de encontro aos interesses dos povos árabes da região. Muito comodamente, à espera dos próximos mártires em trens, aviões, praças e ruas europeias e americanas, prefere-se apelar para sistemas preventivos ou para medidas de exceção que, em certos casos, podem até mesmo afetar o direito sacrossanto de ir e vir ou de reunir-se pacificamente em praças públicas. Tudo se revela sempre inútil.

         O terrorismo só será derrotado quando os países mais poderosos do planeta, sobretudo os Estados Unidos, assim o quiserem. Enquanto os interesses de aliados como Israel ou dos países árabes favoráveis à política americana não forem discutidos, de nada adiantarão barreiras policiais ou rigorosíssimos controles nos aeroportos, pois, para planejar um atentado, basta apenas seduzir um punhado de jovens com palavras de ordem e apelos a promessas ultraterrenas de vida eterna no paraíso para que decidam comprar ou alugar uma van e a arremessem contra uma multidão, não importando o país e muito menos os inocentes que nele se encontrem.

         Racismo e terrorismo são frutos de desinformação e de ignorância, mas não é raro encontrar pessoas altamente informadas e providas de grande erudição que defendam de algum modo a supremacia de um credo ou de uma etnia. Resta, portanto, discutir quais informações ou qual tipo cultura deve ser divulgado e qual formação se deseja dar às nossas crianças e jovens.

         O politicamente correto e as inúteis barreiras nos calçadões servem apenas para mascarar uma realidade incômoda, que não queremos enxergar. Mais do que nunca, a lição de Giacomo Leopardi torna-se imperiosa: somos todos filhos de uma mesma condição humana e só uma grande solidariedade universal que leve em conta o fato de que todos nós, brancos ou negros, árabes ou judeus, estamos sempre à deriva no mesmo barco, órfãos que somos de um conjunto de forças naturais que nos criou e, em seguida, nos abandonou à própria sorte. Como criar esta consciência profunda em bilhões de seres humanos mundo afora? Pode parecer utópico e pouco prático, mas seria a única solução para extirpar racismos e fanatismos, com  muito mais eficácia do que apelos demagógicos à paz, minutos de silêncio em estádios de futebol ou veementes e inúteis discursos de líderes políticos.

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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