* Verdades e mentiras
A política brasileira transita entre (poucas) verdades e (muitas) mentiras. Na última semana, os planetas se alinharam numa configuração diferente e vimos um dos mais aguerridos, combatentes e moralistas senadores ter exposta a sua relação com um dos maiores contraventores do país – cujas práticas ele deveria combater e não se aliar.
Para desgosto da oposição, quem outrora ouviu os discursos inflamados e carregados de julgamentos (julgamentos extremamente pertinentes do ponto de vista do conteúdo, diga-se), não reconhece o acuado senador Demóstenes Torres - que perdeu a garra de outrora e optou por se esconder da mídia, buscando, junto com o seu advogado, elaborar estratégias para sair do “olho do furacão”.
O senador Demóstenes é alvo de grampos telefônicos nos quais se demonstra uma ligação inadequada com o contraventor Carlinhos Cachoeira. Chamando-o de "professor", o senador, que falava de um telefone registrado nos EUA, flerta com o perigo. Vale lembrar: Demóstenes foi Promotor de Justiça, Procurador Geral do Ministério Público do Estado de Goiás e ex-Secretário de Segurança Pública de Goiás. Isso eleva à máxima potência a gravidade de sua relação com Cachoeira.
Ontem (01), o presidente nacional da OAB, Ophir Cavancante, pediu a renúncia do senador, argumentando que "o teor das conversas telefônicas mantidas com o empresário, divulgadas pela imprensa, evidenciam uma situação mortal para qualquer político". O conteúdo das conversas divulgadas? Troca de favores, nomeações indicadas pelo contraventor, valores em dinheiro, interferência em processos judiciais...
Vale ressaltar que Demóstenes é o pré-candidato do DEM para a Presidência da República em 2014 (ou pelo menos ERA) e que pela Lei da Ficha Limpa, declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os políticos que renunciarem ao mandato também ficam inelegíveis. Período da inelegibilidade: o restante do mandato e os oito anos seguintes.
Mas, vale ressaltar que o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) não conseguiu protocolar representação contra Demóstenes no Conselho de Ética do Senado porque desde setembro não há presidente. Para o senador goiano ser incluído na Lei da Ficha Limpa, faz-se necessário que a renúncia seja posterior à representação. Sem representação em tempo hábil, caso renuncie, Demóstenes não ficará inelegível. Há uma corrente que discorda dessa tese, mas neste caso cabe uma longa discussão judicial.
Nota: Não vamos fingir desconhecer os motivos que levam os digníssimos a não resolver a ausência de um presidente no Conselho de Ética do Senado, né? Aí, é uma questão de analisar as “consequências de ter um presidente”, para entendermos os “motivos que levam os parlamentares a optar por não ter um”.
* Pressão do próprio partido
O DEM estabeleceu um prazo: Demóstenes tem até terça-feira (03) para se defender. Caso contrário, o partido aventa a possibilidade de expulsão. O deputado federal ACM Neto, líder do DEM na Câmara, afirma que o partido quer uma explicação sobre os graves fatos antes de dar início ao processo de expulsão. Verdade seja dita: pelo menos o partido não costuma adotar o comportamento de defender seus “malfeitores” ou de silenciar sobre seus “aloprados”. Ponto pro DEM.
* Planos do suplente
O 2º suplente do senador Demóstenes Torres, o produtor rural José Eduardo Fleury, disfarça, mas faz planos: “quero assumir, quando for de direito, se eu tiver direito”. Em tempo: o 1º suplente não assumiria porque também tem ligações com Carlinhos Cachoeira.
* Recordações...
Carlinhos Cachoeira nutre boas relações também no Planalto: foi o protagonista do primeiro grande escândalo da era petista. Em 2004, o petista Waldomiro Diniz, foi flagrado cobrando propina para o partido, ao contraventor. O chefe de Waldomiro era José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil. O encontro foi gravado por Cachoeira. Há um mês, Waldomiro foi condenado a 15 anos de prisão e seu comparsa a dez. Cachoeira também era agraciado com contratos na área de loterias da Caixa Econômica Federal.
* Cenas do próximo capítulo: arquivo bomba
Demóstenes não parece estar nessa história sozinho. Primeiro porque gravações anteriores dão conta de que Carlinhos Cachoeira era muito bem relacionado no Congresso e no Planalto, e para tanto não fazia distinções partidárias. Já surgiram nomes de outros parlamentares e de servidores públicos, que facilitavam os negócios do contraventor. O conteúdo de suas conversas (gravações da PF ou realizadas pelo próprio Cachoeira) deve ser manejado com acuidade. É nitroglicerina pura. E se o contraventor optar pela delação premiada, Brasília virá a baixo...
* O enigma
Um dos enigmas mais intrigantes dessa história se deu durante o pronunciamento de Demóstenes Torres, no Plenário do Senado, no dia 06. Negando qualquer irregularidade em suas relações com o Carlinhos Cachoeira (relação cujas nuances mais comprometedoras ainda não tinham sido divulgadas), o senador foi aparteado por 44 senadores, que lhe prestaram solidariedade e apoio. Outros tantos silenciaram.
Agora veja: um dos grandes opositores do governo - critico feroz - Demóstenes Torres, quando descoberto em uma situação extremamente comprometedora, recebe não o que se esperava de seus opositores – duras críticas – mas, sim, o apoio ou o silêncio dos mesmos. Vamos anotar e esperar os desfechos... Em breve, por certo, essa conivência será esclarecida. Ao que se vê, o submundo do crime e a política andam de braços dados.
* Ninguém aqui é bobo...
O senador Demóstenes Torres foi o relator da CPI do Mensalão. Alguns governistas e jornalistas - com ampliado senso de oportunidade - estão tentando justificar a inexistência do Mensalão colocando sob o senador a responsabilidade por ter inventado o episódio.
Como ninguém aqui é bobo, convêm avisar aos defensores dos “mensaleiros” (acusados de gravíssimos crimes) que essa história de querer usar o caso de Demóstenes como defesa, colocando por terra o relatório que o senador fez na CPI, não vai colar.
Vale ressaltar que a tropa de elite do governo (exímios maquiadores da realidade) já está propondo a “CPI da CPI do Mensalão”. Coisa de quem tem mesmo muito a esconder e busca, nesse subterfúgio, a proteção e não punição dos seus!
* E como eu não acredito em coincidências...
“Acasos”, envolvendo políticos brasileiros, simplesmente não existem. Se um dia eu já acreditei em “coincidências” no octógono da política, eu não me recordo! Não seria esta semana, após ver as graves denúncias contra o senador Demóstenes, que eu passaria a acreditar.
Não negando, obviamente, a veracidade do conteúdo das gravações da Polícia Federal (tampouco minimizando a importância dos fatos), mas ao mesmo tempo conhecendo os "artifícios" usados por alguns políticos, será que podemos especular a possibilidade das investigações sobre o envolvimento de Demóstenes com Cachoeira (que a PF já tem conhecimento desde 2009) ter "explodido" agora para ser utilizada como estratégia de defesa do Mensalão? Afinal, se o julgamento for protelado, a essa altura, haverá prescrição. Ou alguém acredita que as revelações contra Demóstenes Torres, justamente às vésperas do julgamento do Mensalão, se deram ao acaso? É uma incômoda dúvida.
* Futuro do DEM
Depois de protagonizar uma grande trapalhada política nas eleições 2010, quando exigiu a mudança do nome do senador Álvaro Dias por Índio da Costa, para candidato a vice-Presidente, o DEM amargou a perda de quadros significativos com a criação do PSD. O partido pretendia se recuperar e aumentar de tamanho nas eleições municipais de 2010. Outrora um dos maiores partidos do Brasil, o DEM quase deu certo. Agora recebe mais um duro golpe, às vésperas da eleição, com as denúncias envolvendo o seu pré-candidato à Presidência, em 2014, o senador Demóstenes Torres. Restaria ao DEM a fusão com o PSDB?
A política brasileira transita entre (poucas) verdades e (muitas) mentiras. Na última semana, os planetas se alinharam numa configuração diferente e vimos um dos mais aguerridos, combatentes e moralistas senadores ter exposta a sua relação com um dos maiores contraventores do país – cujas práticas ele deveria combater e não se aliar.
Para desgosto da oposição, quem outrora ouviu os discursos inflamados e carregados de julgamentos (julgamentos extremamente pertinentes do ponto de vista do conteúdo, diga-se), não reconhece o acuado senador Demóstenes Torres - que perdeu a garra de outrora e optou por se esconder da mídia, buscando, junto com o seu advogado, elaborar estratégias para sair do “olho do furacão”.
O senador Demóstenes é alvo de grampos telefônicos nos quais se demonstra uma ligação inadequada com o contraventor Carlinhos Cachoeira. Chamando-o de "professor", o senador, que falava de um telefone registrado nos EUA, flerta com o perigo. Vale lembrar: Demóstenes foi Promotor de Justiça, Procurador Geral do Ministério Público do Estado de Goiás e ex-Secretário de Segurança Pública de Goiás. Isso eleva à máxima potência a gravidade de sua relação com Cachoeira.
Ontem (01), o presidente nacional da OAB, Ophir Cavancante, pediu a renúncia do senador, argumentando que "o teor das conversas telefônicas mantidas com o empresário, divulgadas pela imprensa, evidenciam uma situação mortal para qualquer político". O conteúdo das conversas divulgadas? Troca de favores, nomeações indicadas pelo contraventor, valores em dinheiro, interferência em processos judiciais...
Vale ressaltar que Demóstenes é o pré-candidato do DEM para a Presidência da República em 2014 (ou pelo menos ERA) e que pela Lei da Ficha Limpa, declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os políticos que renunciarem ao mandato também ficam inelegíveis. Período da inelegibilidade: o restante do mandato e os oito anos seguintes.
Mas, vale ressaltar que o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) não conseguiu protocolar representação contra Demóstenes no Conselho de Ética do Senado porque desde setembro não há presidente. Para o senador goiano ser incluído na Lei da Ficha Limpa, faz-se necessário que a renúncia seja posterior à representação. Sem representação em tempo hábil, caso renuncie, Demóstenes não ficará inelegível. Há uma corrente que discorda dessa tese, mas neste caso cabe uma longa discussão judicial.
Nota: Não vamos fingir desconhecer os motivos que levam os digníssimos a não resolver a ausência de um presidente no Conselho de Ética do Senado, né? Aí, é uma questão de analisar as “consequências de ter um presidente”, para entendermos os “motivos que levam os parlamentares a optar por não ter um”.
* Pressão do próprio partido
O DEM estabeleceu um prazo: Demóstenes tem até terça-feira (03) para se defender. Caso contrário, o partido aventa a possibilidade de expulsão. O deputado federal ACM Neto, líder do DEM na Câmara, afirma que o partido quer uma explicação sobre os graves fatos antes de dar início ao processo de expulsão. Verdade seja dita: pelo menos o partido não costuma adotar o comportamento de defender seus “malfeitores” ou de silenciar sobre seus “aloprados”. Ponto pro DEM.
* Planos do suplente
O 2º suplente do senador Demóstenes Torres, o produtor rural José Eduardo Fleury, disfarça, mas faz planos: “quero assumir, quando for de direito, se eu tiver direito”. Em tempo: o 1º suplente não assumiria porque também tem ligações com Carlinhos Cachoeira.
* Recordações...
Carlinhos Cachoeira nutre boas relações também no Planalto: foi o protagonista do primeiro grande escândalo da era petista. Em 2004, o petista Waldomiro Diniz, foi flagrado cobrando propina para o partido, ao contraventor. O chefe de Waldomiro era José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil. O encontro foi gravado por Cachoeira. Há um mês, Waldomiro foi condenado a 15 anos de prisão e seu comparsa a dez. Cachoeira também era agraciado com contratos na área de loterias da Caixa Econômica Federal.
* Cenas do próximo capítulo: arquivo bomba
Demóstenes não parece estar nessa história sozinho. Primeiro porque gravações anteriores dão conta de que Carlinhos Cachoeira era muito bem relacionado no Congresso e no Planalto, e para tanto não fazia distinções partidárias. Já surgiram nomes de outros parlamentares e de servidores públicos, que facilitavam os negócios do contraventor. O conteúdo de suas conversas (gravações da PF ou realizadas pelo próprio Cachoeira) deve ser manejado com acuidade. É nitroglicerina pura. E se o contraventor optar pela delação premiada, Brasília virá a baixo...
* O enigma
Um dos enigmas mais intrigantes dessa história se deu durante o pronunciamento de Demóstenes Torres, no Plenário do Senado, no dia 06. Negando qualquer irregularidade em suas relações com o Carlinhos Cachoeira (relação cujas nuances mais comprometedoras ainda não tinham sido divulgadas), o senador foi aparteado por 44 senadores, que lhe prestaram solidariedade e apoio. Outros tantos silenciaram.
Agora veja: um dos grandes opositores do governo - critico feroz - Demóstenes Torres, quando descoberto em uma situação extremamente comprometedora, recebe não o que se esperava de seus opositores – duras críticas – mas, sim, o apoio ou o silêncio dos mesmos. Vamos anotar e esperar os desfechos... Em breve, por certo, essa conivência será esclarecida. Ao que se vê, o submundo do crime e a política andam de braços dados.
* Ninguém aqui é bobo...
O senador Demóstenes Torres foi o relator da CPI do Mensalão. Alguns governistas e jornalistas - com ampliado senso de oportunidade - estão tentando justificar a inexistência do Mensalão colocando sob o senador a responsabilidade por ter inventado o episódio.
Como ninguém aqui é bobo, convêm avisar aos defensores dos “mensaleiros” (acusados de gravíssimos crimes) que essa história de querer usar o caso de Demóstenes como defesa, colocando por terra o relatório que o senador fez na CPI, não vai colar.
Vale ressaltar que a tropa de elite do governo (exímios maquiadores da realidade) já está propondo a “CPI da CPI do Mensalão”. Coisa de quem tem mesmo muito a esconder e busca, nesse subterfúgio, a proteção e não punição dos seus!
* E como eu não acredito em coincidências...
“Acasos”, envolvendo políticos brasileiros, simplesmente não existem. Se um dia eu já acreditei em “coincidências” no octógono da política, eu não me recordo! Não seria esta semana, após ver as graves denúncias contra o senador Demóstenes, que eu passaria a acreditar.
Não negando, obviamente, a veracidade do conteúdo das gravações da Polícia Federal (tampouco minimizando a importância dos fatos), mas ao mesmo tempo conhecendo os "artifícios" usados por alguns políticos, será que podemos especular a possibilidade das investigações sobre o envolvimento de Demóstenes com Cachoeira (que a PF já tem conhecimento desde 2009) ter "explodido" agora para ser utilizada como estratégia de defesa do Mensalão? Afinal, se o julgamento for protelado, a essa altura, haverá prescrição. Ou alguém acredita que as revelações contra Demóstenes Torres, justamente às vésperas do julgamento do Mensalão, se deram ao acaso? É uma incômoda dúvida.
* Futuro do DEM
Depois de protagonizar uma grande trapalhada política nas eleições 2010, quando exigiu a mudança do nome do senador Álvaro Dias por Índio da Costa, para candidato a vice-Presidente, o DEM amargou a perda de quadros significativos com a criação do PSD. O partido pretendia se recuperar e aumentar de tamanho nas eleições municipais de 2010. Outrora um dos maiores partidos do Brasil, o DEM quase deu certo. Agora recebe mais um duro golpe, às vésperas da eleição, com as denúncias envolvendo o seu pré-candidato à Presidência, em 2014, o senador Demóstenes Torres. Restaria ao DEM a fusão com o PSDB?

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