A blogueira cubana Yoani Sánchez criticou nesta terça-feira (19), em Feira de Santana, na Bahia, os protestos que fizeram com que o lançamento do documentário Conexão Cuba-Honduras fosse adiado. Na noite de segunda (18), um grupo fez uma manifestação no espaço Parque do Saber, provocando o cancelamento da sessão.
“Os gritos, os insultos, foi como se tivessem sido orquestrados por terroristas. Eu sou uma pessoa pacífica, e trabalho com o verbo, com a fala, não tinha porquê tanta agressividade. O que pude ver e questionar no debate foi que eles não leem o que eu escrevo no meu blog”, afirmou, na Câmara dos Dirigentes Lojistas de Feira de Santana.
Yoani conversou com jornalistas na manhã desta
terça-feira (Foto: Egi Santana / G1)
Yoani, que é uma das principais vozes de oposição ao regime atualmente comandado por Raúl Castro, conseguiu viajar depois que o governo cubano extinguiu a exigência de permissão para a saída da população do país.
A mudança entrou em vigor em 14 de janeiro. Ela recebeu seu novo passaporte no dia 30 de janeiro. Após viagem pelo Brasil, a blogueira irá também para a República Tcheca, Espanha, México, Estados Unidos e Holanda.
A blogueira cubana fez questão de falar também sobre as questões levantadas pelos manifestantes, que a acusaram de ser financiada por países como os Estados Unidos e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
“Se isto fosse verdade, me digam por que eu continuaria até hoje caminhando pelas ruas de Havana? Este argumento eu conheço desde pequena, e é dado a todos que são contra o regime do meu país”, disse. Sánchez garantiu que vive da renda dos livros que escreve e dos artigos que publica em jornais.
“Eu conheci algo que molesta o governo, que é minha autonomia econômica, e isso provoca o governo. O sistema cubano está estruturado para que cada cidadão esteja preso em uma condição de viver apenas para a sobrevivência. No meu caso, tenho a grande gratificação de publicar livros, de escrever minhas colunas, e a partir do momento que critico o sistema em que vivo, provoco os governantes”, disse.
Yoani ainda exibiu uma carteirinha de identificação, que, segundo ela, lhe dá a condição de trabalhadora autônoma internacional.
Redes clandestinas
Outra questão levantada no protesto foi em relação ao acesso da ativista à internet, restrita em Cuba. “Não é um privilégio meu. A informação da internet circula em Cuba a partir de uma rede clandestina. Imagine que um cidadão tenha acesso a uma informação na internet, e que ele tenha uma memória flash, onde aquela informação pode ser gravada e distribuída para as pessoas, e assim sucessivamente. Além do mais, nada é mais atrativo que o proibido. Toda vez que o governo cubano fala mal de algo, lhe faz profundamente popular”, comentou.
“Eu poderia falar em tom de brincadeira: Se nos tempos difíceis de falta de alimento fomos capazes de inventar o picadinho de carne sem carne, como não podemos inventar a internet sem internet?”, questionou.
Lançamento de documentário
O lançamento do documentário Conexão Cuba-Honduras com a blogueira foi marcado por um protesto seguido de uma mesa de debate, na noite desta segunda-feira (18). A exibição do vídeo, programada para acontecer às 19h da segunda, acabou não ocorrendo.
Ao chegar ao local, a blogueira foi recebida por faixas e cartazes de protesto. Mesmo com a manifestação, uma mesa de debate foi criada e mediada pelo senador Eduardo Suplicy, que pediu ao público que "falasse, mas esperasse Yoani ter o direito de se defender de toda a acusação".
Aos gritos de protesto como "viva la revolución", os manifestantes perguntavam e a blogueira tentava ser entendida, enfrentando a dificuldade do idioma entre os presentes. Por conta do tumulto, a organização do evento decidiu suspender a estreia do documentário. Mesmo assim, Yoani ficou até pouco antes das 23h, quando ela deixou o local acompanhado de sua equipe.
Viagem
Em sua chegada a Feira de Santana, ela recebeu a imprensa por cerca de 10 minutos no hall do hotel onde está hospedada e ganhou de presente uma boneca, lembrança da Bahia.
G1
Foto: Egi Santana / G1

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