Para secretário de Segurança do Rio, polícia tem que 'agir de forma fria'. Governador Sérgio Cabral convocou cúpula após confrontos na quarta (17).
O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, afirmou na manhã desta quinta-feira (18) que "não há um manual" de segurança de como atuar em situações de "turba ou confusão", como classificou o tumulto da noite de quarta em manifestação na Zona Sul, que ocorreu em paz na maior parte do tempo e acabou com confronto e atos de vandalismo (veja a íntegra da entrevista das autoridades no vídeo ao lado).
"Existem protocolos e maneiras de você atuar dentro de manifestações planejadas. Não há um protocolo no mundo para se atuar em turba ou confusão", disse o secretário (assista à reportagem do Bom Dia Brasil no vídeo ao lado com imagens exclusivas de atos de vandalismo, saques e depredações durante confronto com a polícia).
Segundo Beltrame, a polícia tem que agir de forma fria durante as manifestações. "Não há um manual, nada mágico para você resolver a situação como ontem. Está na capacidade e poder de discernimento para agir neste contexto."
O governador Sérgio Cabral convocou uma reunião de emergência no Palácio Guanabara, em Laranjeiras, para discutir a atuação das forças de segurança nas manifestações. Além dele e de Beltrame, participam a chefe da Polícia Civil, Martha Rocha; o comandante da PM, coronel Erir da Costa Filho; o chefe do Estado-Maior da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto; e os secretários da Casa Civil, Regis Fichtner, e de Governo, Wilson Carlos Carvalho.
Beltrame disse que o campo operacional irá fazer mudanças na ação da PM, mas rebateu as acusações de abusos cometidos pela polícia. "Para tachar alguém de ter cometido excesso, eu preciso dar o direito a ampla defesa. Sindicâncias são abertas para ter o efetivo apuratório", afirmou o secretário, garantindo que, se constatado excesso, haverá a punição devida, "seguindo os procedimentos normais da corporação".
Planejamento para o Papa 'está pronto'
O secretário disse ainda que o planejamento para a visita do Papa está pronto. "Ele tem um protocolo. A gente sabe o que vai acontecer na agenda desta autoridade", disse. "A questão da manifestação é diferente, a PM está adaptando, porque não há uma agenda coordenada. A gente está atento, mas tem que ver quando vai acontecer, se isso vai acontecer, porque a gente não tem esta informação."
'Nossa ação não deu certo'
O comandante da Polícia Militar, coronel Erir Costa Ribeiro, afirmou que "é impossível" não usar munições menos letais durante os protestos. "O gás lacrimogêneo, que todo mundo reclama, é o menos letal. O gás é para dispersar os vândalos. E falam para nós não usarmos o gás. E nossa ação não deu certo. Esse pacto, que foi feito com as autoridades, não deu certo."
"Depois da farda aqui, somos policiais militares. Mas somos cidadãos também. Se a PM não estiver ali, é anarquia. E todos temos que ter responsabilidade. Ninguém sabe quem está por trás", disse o comandante, confirmando que a PM vai "repensar" a atuação depois do cenário de tumulto registrado ontem.
Erir Ribeiro destacou ainda a dificuldade de dialogar com os manifestantes devido à ausência de um líder e afirmou que os profissionais de imprensa descaracterizados dificultam saber quem é jornalista. "Você sabe quem é o policial militar, eu estou identificado. Mas hoje a própria mídia não está identificada. É novo, e esse novo, todo mundo precisa aprender."
O coronel Alberto Pinheiro Neto, chefe do Estado-Maior da PM, também disse que o acordo que houve entre PM e manifestantes, para não usar o gás no protesto, não deu certo. Segundo ele, a PM ainda está analisando as técnicas que serão usadas de agora em diante, trocando informações com outras partes do mundo. Ele falou que a PM foi atacada e só agiu depois disso.
A delegada-chefe da Polícia Civil, Martha Rocha, diz que há prisões de vândalos. Segundo ela, foram identificadas 16 pessoas por incitação ao crime. Ela afirmou que a polícia segue investigando, mas que as prisões pelos crimes que ocorrem – vandalismo, formação de quadrilha e incitação ao crime, dano, desacato e lesão corporal – preveem fiança ou dependem de representação.
Manifestação acaba em confronto
Na noite de quarta-feira (17), uma manifestação na Zona Sul do Rio de Janeiro terminou em confronto com a polícia. Imagens do Bom Dia Brasil mostram atos de vandalismo nos bairros do Leblon e de Ipanema, que amanheceram com marcas de destruição. Agências bancárias e caixas eletrônicos foram atacados, lojas foram saqueadas e fogueiras foram feitas com lixo e papel, interditando várias ruas no entorno da avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon, e da rua Visconde de Pirajá, em Ipanema.
O Batalhão de Choque da Polícia Militar utilizou dezenas de bombas de gás para dispersar o protesto. Segundo a PM, pelo menos 500 pedras portuguesas foram retiradas da calçada por manifestantes. Quatro PMs ficaram feridos com pedradas. Outra policial foi ferida nas costas por uma bomba de fabricação caseira. O número de manifestantes feridos é desconhecido.
O protesto iniciou de maneira pacífica. Em coro, manifestantes gritavam palavras de ordem contra o governador. Uma barreira de policiais militares impediu a aproximação das pessoas do prédio onde Cabral reside.
De acordo com a página convocando a manifestação na internet, o grupo reivindica CPIs da Delta, da Copa e do Helicóptero (cujo uso por Cabral é investigado pelo Ministério Público). Os manifestantes também são contrários à privatização do Maracanã, ao fim do antigo Museu do Índio, às remoções compulsórias e às privatizações por conta da Copa. Pedem ainda a desmilitarização da polícia e o impeachment de Cabral e do vice-governador, Luiz Fernando Pezão.
Por volta das 7h desta quinta, a rua Aristides Espínola, onde mora Cabral, tinha policiamento reforçado, com grades nas calçadas. Em Ipanema, onde também houve depredação de lojas e agências bancárias, vários carros da PM estavam no local.
Cabral culpa opositores
Em nota, o governador Sérgio Cabral declarou após as manifestações que "a oposição busca antecipar o calendário eleitoral criando constrangimentos à governabilidade". "O governador, legitimamente eleito por 67% dos votos no 1º turno nas ultimas eleições, reitera o seu compromisso de continuar a manter o Rio de Janeiro na rota do desenvolvimento social e econômico", diz o comunicado. A acusação foi rebatida por possíveis concorrentes à eleição em 2014, segundo reportagem do O Globo.

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