Nesta semana, dois empreendedores apresentaram seus desafios em lidar com gente. Em seu post na segunda-feira, Pedro Chiamulera, da ClearSale, explicou que oempreendedor não consegue comprar a confiança da sua equipe. Na quarta-feira Juliana Motter, da Maria Brigadeiro, comentou que seu papel já não é mais fazer brigadeiros, mas motivar sua equipe para fazê-los com o mesmo amor, confiança e dedicação que tinha quando iniciou o negócio.
Gestão de gente talvez seja a principal e a mais crucial falha nas pessoas que empreendem, que querem empreender e naquelas que se baseiam em abordagens como planos de negócio, effectuation, business model canvas, customer development ou lean startup.
Não há “receitas de gente” nestas abordagens. E o que acontece, de fato, é o que é relatado no post da Juliana Motter. De repente, aquele empreendedor que sonhou com um produto ou serviço instigante se vê imerso na realidade da vida e atitudes de seus colaboradores, clientes, fornecedores e entende que o seu negócio é pelas pessoas, para as pessoas e com as pessoas.
Os que perceberam isto, tornaram-se empreendedores de sucesso. O problema é que não há uma única receita de gente. Cada empreendedor desenvolveu a sua, aprendendo ou não com outras receitas de outros empreendedores.
Bill Hewlett e Dave Packard, co-fundadores da HP, por exemplo, criaram o MBWA, sigla em inglês que remete algo como “gerir andando por aí”. Sua receita era contratar gente brilhante que se sentissem no mesmo nível dos “donos” da empresa.
Por isso costumavam andar pela empresa, conversando com as pessoas, de uma forma simples, amigável e franca. Uma das frases favoritas da dupla para os membros do seu time era: se você não estiver cometendo muitos erros, provavelmente está inovando pouco.
Isso incentivava seus colaboradores a inovarem e hoje esta receita é cultuada no Vale do Silício. O MBWA foi utilizado e adaptado por vários outros empreendedores como Walt Disney, Sam Walton e Luiz Seabra da Natura. Ainda nesta semana, uma aluna que tinha trabalhado na Natura descrevia sua paixão pela empresa e os vários momentos em que encontrou com o “Seu Luiz” que vinha puxar papo com ela e com todos os outros colegas de trabalho.
A receita de gente do super trio de empreendedores brasileiros: Jorge Paulo Lehmann, Beto Sicupira e Marcel Herman Telles começa com “contrate pessoas melhores do que você”. E o sucesso desses empreendedores muito se deu em função da habilidade em selecionar pessoas que entregam desempenhos extraordinários.
Mas as boas receitas de gente estão em todas as partes e em empresas de todos os portes. A minha receita preferida de gente foi elaborada por uma ex-empregada doméstica que iniciou o negócio a partir de um humilde salão de beleza no bairro da Tijuca (Rio de Janeiro).
E a receita leva apenas quatro ingredientes: zelo, inovação, competência e ambiente. Zelo pelas pessoas, pelos detalhes e pelo compromisso em aumentar a auto estima das pessoas. Inovação na geração de novas ideias que tornem a experiência das clientes ainda mais inspiradora. Valorização e incentivo para o desenvolvimento de novas competências das pessoas que formam a sua equipe. E um ambiente que realmente inspire pessoas a serem ainda melhores do que já são.
Zelo, inovação, competência e ambiente formam a palavra Zica, o carinhoso apelido da Heloísa Assis, a ex-empregada doméstica que co-fundou o Beleza Natural, uma rede de institutos de beleza que emprega mais de 1.700 pessoas e cresce 30% a.a.
Empreendedorismo, no final do dia, é entender de gente. É criar as condições para que as pessoas do seu time criem motivos para que outras pessoas contribuam para o sucesso do seu negócio, sejam como fornecedores, parceiros, usuários e clientes.
blog do empreendedor
No empreendedorismo, se você quer paz…prepare-se para a guerra
Marcelo conta o caso do Walmart
Nesta semana, mais desafios, dilemas e desejos postados pelos meus colegas empreendedores do Blog do Empreendedor Estadão PME. Adriane Silveira, da Nanny Dog, tratou de um dilema que eu também não sei como resolver. A quantidade de mensagens que recebo todos os dias.
Todos querem uma resposta rápida e completa, mas realmente não consigo dar conta. A Juliana Motter, da Maria Brigadeiro, falou da importância do improviso na rotina do empreendedor. Pelos exemplos bacanas que ela deu, eu chamaria isso de criatividade e não de improviso.
Mas gostaria de destacar o post do Pedro Chiamulera, da ClearSale, não só porque ele sabe e vive exatamente o que escreveu, mas também porque muitos empreendedores ainda encaram a abertura de um negócio como algo romântico. É ingênuo pensar desta forma por mais que eu defenda a causa dosnegócios sociais, do capitalismo consciente e das B Corps.
Si vis pacem, para bellum! Ou para os que não entendem nada de latim como eu: Se quer a paz, prepare-se para a guerra. Você está preparado?
Una os termos guerra e negócio e alguém levanta a mão para falar de um livro que muitos conhecem, poucos leram e raros são os que leram mais de uma versão para formar uma opinião sobre o que é, de fato, a Arte da Guerra. Muitas listas dos “melhores livros de negócio de todos os tempos” trazem o manuscrito atribuído ao general chinês Sun Tzu e a sua Arte da Guerra já foi adaptada para os executivos, mulheres, concursos, que mexeram no queijo do pai rico, e os que são contra os raios.
De todos os ensinamentos da versão original da Arte da Guerra, uma vinha sendo repetida por todos os executivos que acreditavam no si vis pacem, para bellum:
Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas…
E neste contexto, talvez nenhum empreendedor tenha levado Sun Tzu tão ao pé da letra como Sam Walton, fundador do Walmart. Quando ainda tinha apenas uma lojinha que vendia quinquilharias, Sam visitava seu concorrente da frente todos os dias de manhã antes de abrir as portas da sua loja.
Com isso, ele já sabia quais produtos expor, quais promoções fazer e com quais apelos. Hoje as pessoas chamam isso de inteligência competitiva. Sam era um mão de vaca. Usava roupas compradas no própria Walmart, viajava de classe econômica e muitos falam que só colocou o nome de Wal Mart e não Walton Mart para economizar no número de letras dos letreiros das lojas.
Mas investia pesadamente em sistemas de informações quando computador era caro e coisa de cientista. Só o Pentágono do governo norte-americano tinha uma capacidade de processamento maior do que a da rede de Sam. Lenda urbana ou não, muitos já ouviram falar que há uma correlação entre fralda descartável e cerveja.
Bom…
Ninguém vende mais fralda e cerveja nos Estados Unidos do que o Walmart. Hoje as pessoas chamam isso de Big Data. Por conhecer bem a concorrência e a si mesmo, a Walmart faturou US$ 421 bilhões em 2011, mantendo a sua posição de maior empresa do mundo.
Mas agora, várias empresas estão confusas porque já não conhecem a si mesmas. Muitas estão em crise existencial repensando seus propósitos e valores. O próprio Walmart entrou em uma cruzada em favor da sustentabilidade. Um dos fatores para isto estar acontecendo é ilustrado pela pesquisa da DMRH, consultoria de recursos humanos, que constatou que 40% dos executivos querem mudar de emprego, não só em função do dinheiro, mas pela busca de oportunidades com propósitos e valores mais inspiradores. Algumas empresas com políticas de bônus agressivas, criaram inimigos que estão em suas folhas de pagamentos. Assim, o inimigo, em alguns casos, já não está só do lado de fora.
Daí a importância do conceito de guerra proposto pelo Pedro Chiamulera em seu post A Polaroid, Kodak, Nokia e a sua pequena empresa estão em guerra! Quando ele finaliza seu texto afirmando que “às vezes é muito saudável, mas muito saudável sentir este estado de guerra. Senso de urgência! Reúna o teu time e grite alto: Estamos em guerra!”, na verdade, está se alinhando ao verdadeiro conceito de guerra travado por Sam Walton durante sua trajetória empreendedora.
Sam tinha um caderno em que fazia anotações, todas as noites quando fechava sua loja. Nele anotava exemplos de porque sua empresa tinha sido melhor do que ontem. Podia ser um faturamento maior do que no dia anterior (ou comparado ao mesmo dia do ano anterior), mas também podia ser uma promoção executada com sucesso, uma compra bem feita do fornecedor, uma nova oferta de produtos exclusivos ou, simplesmente, um agradecimento de algum cliente. Ser melhor do que ontem era sua verdadeira guerra! E todas as empresas e empreendedores travam a mesma guerra, goste você ou não do colosso que virou a empresinha fundada em uma minúscula cidade chamada Bentoville por um caipira que pegou dinheiro emprestado do sogro para fundar uma loja que só vendia itens de cinco e dez centavos.

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