Medicalização excessiva pode se tornar problema de saúde pública, afirma psiquiatra
Para Fabiana Nery, do Espaço Holos, falta de diagnóstico médico preciso resulta em tratamento de patologias inexistentes.
O uso de remédios para tratar patologias interpretadas de forma equivocada, sobretudo pela falta de diagnóstico preciso, pode se tornar um problema de saúde pública no Brasil. O alerta é da psiquiatra Fabiana Nery, do Espaço Holos, diante do aumento do que é caracterizado como medicalização excessiva, processo que transforma, artificialmente, questões não médicas em problemas médicos. Ou seja: o tratamento de processos ou comportamentos sociais e culturais em crianças, adolescentes ou adultos com quadro de patologias psiquiátricas.
Usado para combater o Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o metilfenidato, medicamento comercializado com os nomes Ritalina e Concerta, é uma das substâncias que têm gerado preocupação por causa do seu alto grau de consumo entre os jovens.
Segundo pesquisa divulgada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 2013, o uso do metilfenidato por crianças e adolescentes na faixa etária dos 6 aos 16 anos aumentou 75%.
Também conhecido como "droga da obediência", o metilfenidato tem atuação sobre o sistema nervoso central. De acordo com a psiquiatra Fabiana Nery, é aí que mora o perigo, caso o paciente não tenha recebido o diagnóstico médico correto acerca de determinada patologia.
"Nem toda pessoa inquieta ou sem concentração tem o TDAH. Às vezes, pode estar sendo medicada por alguma falha na avaliação. Outra questão importante é que a alteração observada pode ainda representar outras patologias psiquiátricas ou não. E, sendo assim, o diagnóstico diferencial se torna fundamental para um tratamento adequado", explica.
ANTIDEPRESSIVOS
Com relação ao sentimento de tristeza ocasionado pelo término de um namoro, por exemplo, a especialista afirma que tentar tratar o quadro com medicamentos antidepressivos em muitos casos pode ser em vão.
“O antidepressivo é uma medicação específica, em geral utilizada para quadros patológicos como depressão ou ansiedade. Muitas vezes a tristeza é reacional ou reativa a alguma situação, mas pode ser interpretada, de forma equivocada, como um quadro depressivo e patológico", diz.
Conforme Fabiana, o uso indevido de tais drogas pode desencadear efeitos colaterais como dor de cabeça, náusea, sonolência, aumento de peso, além da chamada "virada maníaca", que é quando o paciente depressivo apresenta uma aceleração psicomotora. “Por outro lado, uma questão importante é a utilização de subdoses de antidepressivos que podem ter como consequência o surgimento de quadros depressivos mais crônicos.”
PARA EMAGRECER
Considerados pela psiquiatra como uma "questão antiga", os medicamentos para perda de peso também podem ser nocivos à saúde. "Medicamento nunca deve ser o tratamento inicial ou principal para redução de peso. Para emagrecer, em geral, a indicação são exercícios físicos e reeducação alimentar. Acreditar que vai emagrecer utilizando uma substância só faz com que os malefícios se sobreponham ao benefício", diz a especialista.

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