À imprensa baiana.
Após
uma mulher ser conduzida por força policial à sala de parto, em Torres-RS, por
se recusar a passar por uma cesariana, o Movimento Pela Humanização do Parto –
Bahia promove na próxima sexta-feira, 11, a partir das 15h, em frente à sede do
Ministério Público
do
Estado da Bahia (MP-BA), a versão
baiana do manifesto “Somos Todxs
Adelir – Ato Contra a Violência Obstétrica”.
Conjuntamente
com vários estados do Brasil e cidades de outros países, o movimento em defesa
da humanização do parto visa denunciar a violência obstétrica ocorrida em
Torres. Violência exercida pelo Estado, sob legitimação do Poder Judiciário e
respaldada pela prática médica, descolada das evidências científicas, além de
dialogar com a população e principalmente solicitar apoio deste órgão, através
da sua Comissão de Direitos Humanos, à nossa busca por apuração e justiça.
“Entendendo
que o Ministério Público tem como uma de suas funções sociais protegerem os
direitos fundamentais das/os cidadãs/os, para nós do movimento pela humanização
do parto da Bahia é fundamental que sejam identificados e apurados os casos de
violência obstétrica que acontecem todos os dias nos hospitais e maternidades
públicas e privadas do nosso estado”, afirmam as organizadoras da manifestação.
Elas
classificam a atuação do MP-BA nesses casos como “fundamental”, contanto que
feita ao lado dos grupos e movimentos organizados. “Precisamos acompanhar a
atuação dos hospitais, maternidades e profissionais,. a fim de garantir uma
assistência a gestação e ao parto humanizado, o respeito ao corpo e autonomia
das mulheres, a real integridade da saúde dos bebês, os direitos, a intimidade,
a afetividade das famílias. Exigimos a efetiva execução das políticas nacionais
de humanização da saúde e do parto; e que não realizem cesáreas
desnecessárias”.
CONTATOS
Tanila Amorim Glaeser: 71 8161.0569
Maria Santana: 71 9160-7656
Chenia Silva: 71 9277-6330
Marilena Pereira: 71 9139-6871
O CASO – Em 01 de Abril de 2014, no meio da
madrugada, uma mulher em trabalho de parto foi retirada de sua casa à força –
mediante uma ordem judicial, policiais armados e ameaças de prisão ao seu
marido, na frente de seus filhos mais velhos – e levada sob custódia para um
hospital público designado por uma juíza para sofrer uma cesárea sem seu consentimento.
Durante o transporte, ela pediu para ser
conduzida a outro hospital, que considerava uma melhor opção para si, e isso
foi negado. A mulher foi levada à cirurgia sozinha, tendo sido negada a
presença de um acompanhante (direito garantido pela lei federal 11.108/2005).
Na
tarde daquele dia (31/3), Adelir havia procurado o hospital por já estar
sentindo algumas dores. Na ocasião, a médica ordenou que ela se internasse para
uma cirurgia cesariana imediatamente. No entanto, Adelir assinou um termo de
responsabilidade e voltou para casa com o objetivo de esperar o trabalho de
parto, já que o monitoramento fetal apresentou bons resultados no quadro
clínico da mãe e do bebê. Além disso, ela havia feito todo o pré-natal (total
de nove consultas) e realizado todos os exames requisitados. Todos apresentavam
normalidade e a gestação não era de risco.
Inconformada
com a escolha da gestante, a médica decidiu acionar a Justiça, alegando risco
iminente de morte. As justificativas que apontavam urgência, no entanto, estão
sendo questionadas por boa parte da comunidade médica do país. Segundo estudos
clínicos atualizados e em acordo com as evidências científicas, os motivos
alegados: duas cesarianas prévias, bebê em posição podálica (uma variação da
pélvica – sentada) e idade gestacional estimada em 42 semanas; não são
indicações de cirurgia imediata, a menos que mãe ou bebê estivessem
apresentando algum sinal de sofrimento, o que não foi diagnosticado pelos
exames realizados pela própria instituição. Além disso, o exame, divulgado após
o grave incidente, atestou também que a idade gestacional era, na verdade, de
40 semanas e não de 42. Fato que corrobora ainda mais para a falta de caráter
urgente da cirurgia indicada pela médica.
Adelir
passou pela cirurgia e a filha nasceu bem, com apgar alto (o apgar é um exame
que avalia o estado do recém-nascido) - o que mostra que não estava em
sofrimento. Durante a cesariana, a parturiente também não teve assegurado seu
direito ao acompanhante. O marido foi impedido de acompanhar o procedimento. A
lei do acompanhante vem sendo desrespeitada em várias maternidades brasileiras,
apesar de existir desde 2005.
A
decisão judicial (provocada a requerimento do Ministério Público) foi
fundamentada na opinião de apenas uma médica, sem que a mulher tenha sequer
sido ouvida, sem que tenham sido apresentadas provas ou pedida uma segunda
opinião, sob a alegação de “proteger a vida do nascituro”, ainda que isso
ferisse direitos fundamentais da mulher.
A que esses fatos remetem?
Privação
de Liberdade | Constrangimento | Internação Compulsória | Sequestro | Tortura |
Violação dos Direitos Humanos | Violência de Gênero | Agressão Física Grave |
Ditadura | Truculência do Estado | Discriminação contra a Mulher | Violência
Obstétrica | Medicalização da Vida | Judicialização da Vida
Por que você tem a ver com isso?
O caso de Adelir Góes, ocorrido em Torres/RS,
abre um perigoso precedente que afeta direta ou indiretamente todxs que militam
por causas ligadas aos Direitos Humanos, Direitos das Mulheres, Direitos
Sexuais e Reprodutivos, Direitos das Minorias (Adelir, seu marido e família são
ciganos e argumentos discriminatórios têm surgido sistematicamente nos debates
sobre o caso), bem como contra toda e qualquer forma de violência contra as
mulheres, incluindo aquela praticada pelo poder público e seus agentes. O debate
é particularmente importante para todxs que têm se debruçado sobre o “Estatuto
do Nascituro” e suas potenciais consequências sombrias.
Não se trata de um debate sobre parto normal ou
cesárea!
Trata-se de uma violação aos direitos
humanos, particularmente ao direito à integridade pessoal, liberdade pessoal,
proteção da honra e da dignidade. Trata-se de uma violação aos direitos
reprodutivos, que consistem na possibilidade das pessoas poderem escolher,
mediante a informação, COMO, QUANDO, ONDE e EM QUE CONDIÇÕES terão ou NÃO terão
filhos. Se você não quer ter filhos, se você quer ter filhos por cesárea, o seu
direito de escolha também está ameaçado quando o poder médico e o poder
jurídico podem decidir por você e usar de medidas arbitrárias para que esta decisão
seja cumprida à sua revelia.
RELATOS DE CASOS SEMELHANTES AO DE TORRES
Maria Santana, 25
anos, ocorrido na Maternidade Climério de Oliveira em Salvador-Bahia
Neste 25 de novembro - Dia Internacional de
Eliminação da Violência Contras as Mulheres - quero reafirmar que 1 em cada 4
mulheres sofre algum tipo de violência durante o atendimento ao parto. Isso é
muito grave! Isso é violência obstétrica, isso é violência contra a mulher.
Precisamos visibilizar o invisível.
Eu
mesma preciso denunciar, gritar, desfazer as amarras que até hoje não me
permitiram escrever meu relato de parto (ou não-parto), que não me permitiram
responder a carta do SUS avaliando o atendimento que tive. Preciso colocar pra
fora, me fortalecer, encorajar outras mulheres, estudar, formular políticas
para superar essa realidade violenta. Preciso dizer que sofri as seguintes
violências listadas no Relatório Final da CPMI da Violência Contra a Mulher:
exame de toque doloroso, negativa para alívio da dor, não explicação para procedimentos
adotados, negativa de atendimento e humilhações, intervenções desnecessárias e
‘didáticas’ (em determinado momento - momento de intensas dores - fui objeto de
estudo dos estudantes da Climério de Oliveira), intervenções de verificação e
aceleração do parto e cesárea desnecessária, não permissão de acompanhante pré,
durante e pós-parto.
Porque
essa é a realidade de praticamente todos os partos no Brasil? Porque sofremos
violência ao invés de ter acesso a informação, assistência, cuidado, autonomia,
auto-conhecimento, crescimento, e porque não amor? Sigamos em marcha até que
todas sejamos livres, sigamos em marcha até que todas possam PARIR e GOZAR uma
VIDA sem violência!
U.B.N. ocorrido no Hospital Menandro de Farias em Lauro de Freitas
- Bahia
Tenho
três filhos, todos tidos em Hospital público. Minha filha do meio hoje tem 4
anos.
Fui
ao hospital com a bolsa estourada, porém sem contrações, o hospital estava
vazio, a obstetra demorou cerca de 30 minutos para me atender, pois estava
dormindo. Chegou e me mandou para a sala do pré-parto onde uma técnica de
enfermagem me recebeu com a seguinte pergunta: “é o primeiro filho?” Eu disse
não, então ela me respondeu: -“ Ah, então já sabe com é...” e me deixou naquele
setor sozinha, ou melhor, com mais uma companheira que estava gemendo de dor.
Cheguei
a sala por volta de 2 da manha, ela só apareceu às 6 e ainda dizendo que estava
doida pra ir embora. Perguntei: - “Você não vai me dar nada? Estou aqui sem
sentir contração, meu filho sem líquido.” Então ela resolveu me dar um tal
remédio na veia pra adiantar as contrações. Foi coisa muito rápida, pois nem
ela esperava, ela queria trocar o plantão e começou a torturar a minha cabeça
com inseguranças.
“Como
você já sabe, é segundo filho, eu vou é embora.” E toda hora sumia da sala, até
que as contrações já estavam tão fortes que senti vontade de fazer côco. Pedi a
ela uma aparadeira, ela mandou que eu fosse ao banheiro SOZINHA. Eu disse que
não tinha condições, muita contração e minha filha podia nascer no vaso
sanitário. Ela continuava andando de um lado para o outro, reclamando da vida,
de mim, que eu estava atrapalhando a sua saída.
Resolvi
fazer coco ali mesmo, pois eu não ia arriscar minha filha nascer no vaso.
Quando
fiz isso parecia que tinha destruído o hospital, a técnica de enfermagem ficou
louca de raiva, me esculhambando e minha filha estava a ponto de sair. Ela saiu
e me deixou lá toda suja, e Flor - minha filha - coroando.
Foi
quando outra técnica viu e a chamou, ela veio com toda grosseria me mandando
levantar a perna para ela limpar. Aos gritos me mandando abrir o olho, pois eu
estava concentrada para dar a luz. Foi então que ouvi e levantei a perna, ao
mesmo tempo ela se abaixou e eu chutei o seu rosto sem querer, ora, eu estava
com os olhos fechados e não vi. Essa mulher quase me bate gritando aos quatro
cantos: -“ Você chutou o meu rosto!”
Minha
filha acabou nascendo na sala do pré parto mesmo, eu sozinha fazendo força,
quando o médico obstetra do plantão veio chegando e viu a cena da cabeça da criança
para fora ficou assustado e puxou a menina sem nem me avisar, fraturando a
clavícula da minha filha! Ela nasceu as 7:10 da manhã, esse processo durou
apenas 1 hora.
Me
senti agredida e impotente, o receio de fazerem alguma coisa contra minha
filha me fez calar. Não deixaram a acompanhante entrar. Isso é garantido por
lei e eu não sabia.

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