Violência em Salvador e RMS será retratada em documentário do premiado fotógrafo André Liohn.
O fotógrafo André Liohn, primeiro e único sul-americano a conquistar o prêmio Robert Capa Gold Medal, um dos mais importantes prêmios de fotografia do mundo, está em Salvador para registrar cenas de violência que envolve o cotidiano soteropolitano e de outros municípios da Região Metropolitana. O trabalho faz parte do Projeto REVOGO, documentário que Liohn desenvolve a cerca de dois anos, com a proposta de revogar as certezas que se tem sobre a violência no país.
Usando da tradição da fotografia de conflitos, na qual é especialista, Liohn criará um documento visual que busca contribuir para a melhoria dos argumentos dos brasileiros sobre a violência no país. Aprovado pelo Ministério da Cultura (MinC) para atuar dentro da Lei Rouanet, com captação de recursos de empresas privadas e pessoas físicas em troca de benefícios fiscais, o projeto retratará a violência em todas as regiões brasileiras e culminará com uma mostra de fotografia em São Paulo e Brasília.
Sobre os motivos que lhe levaram a idealização de REVOGO, Liohn afirma que a violência no Brasil sempre foi algo que lhe perturbou, tanto pelos efeitos diretos causados em sua vida, quanto na de pessoas próximas, como familiares e amigos. “Porém, também sempre me incomodou o discurso reproduzido por muitos de que o Brasil tem uma guerra civil não declarada e, após anos trabalhando em áreas de conflito, de guerras civis principalmente na África e Oriente Médio, eu entendi que no Brasil, apesar de todos os problemas que a violência de nosso país nos causa, o conceito de guerra não poderia ser usado e que usá-lo serve apenas para desfocar nosso entendimento sobre esta nossa praga”, avalia.
Para ele, comparar a violência no Brasil com guerras é possível apenas se pensarmos no número de mortes que ambos os problemas causam. “Se analisarmos ambos os casos detalhadamente, veremos que além dos números, nossa violência e guerras são fundamentalmente diferentes e, por isso, os métodos para que possamos evoluir do estado em que estamos agora, não pode ser o mesmo ou sequer, se inspirar nos métodos usados em situações de guerra.
“O Brasil sofre de um caso crônico de delinquência social, um caso que não coincide com as aspirações ou possibilidades do país, porém, eu identifico aspectos culturais, momentos históricos e estruturas públicas e políticas que fomentam e legitimam uma postura violenta no cidadão brasileiro, independentemente de sua classe social. O projeto REVOGO é a exposição direta destes aspectos”, diz o fotógrafo.
Embora a exposição esteja inicialmente prevista para acontecer nestas duas capitais, sua estrutura será itinerante, permitindo que seja exposta em outras cidades seja nas capitais ou nos interiores. “Espero que instituições pelo Brasil possam se interessar em expor o trabalho para que possamos chegar a outras cidades do país”, ressalta.
Workshop de fotojornalismo
Durante a estádia em Salvador, André Liohn realiza, também, um workshop para fotojornalistas e demais pessoas interessadas em imergir no universo fotográfico. O evento, que acontece no bairro da Vila Laura, teve início na última segunda-feira (23) e segue até o dia 27 (sexta-feira). O objetivo é estimular os participantes a explorar, de maneira intuitiva e livre, a vida cotidiana de Salvador, desafiando-os a uma imersão profunda e íntima na busca de uma linguagem fotográfica que possa expressar personalidade e opinião.
"Seja qual for o contexto da pauta, as experiências pessoais criam histórias reais de vida e influenciam o resultado do trabalho e isso será sempre objeto de discussão", diz Liohn. Segundo ele, isso explica o eixo básico do encontro que está voltado para o desenvolvimento de uma linguagem única e pessoal e para a importância de refletir a fotografia, questionando os conceitos ortodoxos do ato de fotografar e se auto desafiar.
Sobre André Liohn
Nascido na periferia de Botucatu, interior de São Paulo, André Liohn (40), mudou-se para Noruega aos 20 anos, onde estudou Comércio Exterior e trabalhou em uma grande empresa, o que lhe permitiu viajar por muitos países. Aos 30 despertou para fotografia, retratando usuários de heroína na Noruega e a catástrofe humanitária na Somália.
Especializou-se na cobertura de conflitos no Oriente Médio, África Oriental e América do Sul. Em 2012, ganhou o prêmio Robert Capa Gold Medal Award do Overseas Press Club por sua reportagem fotográfica sobre a Guerra Civil da Líbia em 2011. Seu trabalho documentando os desafios enfrentados pelos profissionais da saúde em conflitos é usado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Suas fotos já foram publicadas em grandes veículos de comunicação pelo mundo, a exemplo do Der Spiegel, The New York Times, Newsweek, The Guardian, El Pais, Le Point, Time, entre outros. Já os seus vídeos foram exibidos pela BBC, CNN, Al Jazeera, RAI, NRK, ITV, SBT, Der Spiegel TV, RTL e france 24.v.
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