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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Natureza inspira obras de autores da literatura brasileira

Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampa fazem parte do imaginário de importantes histórias nacionais



“Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. Nos inconfundíveis versos iniciais de Canção do Exílio, de 1843, o poeta romântico Gonçalves Dias escolhe elementos da natureza para descrever a saudade que sentia do Brasil enquanto concluía seus estudos em Portugal. E ele não é o único. Seja no romantismo, no naturalismo ou na arte contemporânea, são inúmeros os exemplos de artistas que buscaram na natureza a inspiração para algumas de suas mais marcantes produções.

Neste sábado (25/7), data em que se comemora o Dia Nacional do Escritor, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza separou uma lista de importantes autores brasileiros que encontraram nas riquezas naturais do País matéria-prima para suas obras.

“Ter o meio ambiente representado em projetos culturais é extremamente importante para que as pessoas se aproximem e criem identificação com a temática. Quanto mais livros, gibis, cartilhas, filmes, músicas, poemas e pinturas forem produzidos tendo a natureza brasileira como protagonista ou coadjuvante, maior será a disseminação de conhecimento sobre o tema. E é essencial conhecer para proteger”, diz Melissa Barbosa, coordenadora de Comunicação da Fundação Grupo Boticário.

A seguir, dez obras, entre clássicos, contemporâneos e infantojuvenis, que apresentam ao leitor os diferentes biomas e paisagens do Brasil.



A Reforma da Natureza – Monteiro Lobato

Quando Dona Benta e Tia Nastácia precisam viajar e deixam Emília sozinha para cuidar do Sítio do Pica Pau Amarelo, coisa boa não poderia acontecer. É com esse pretexto que, em 1941, Monteiro Lobato publica “A Reforma da Natureza”. Na obra, Emília aproveita que está sem supervisão para mexer com os elementos naturais e desafiar as leis da ciência. “Reforma” foi um dos últimos livros escritos por Lobato.

Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa

A obra-prima de Guimarães Rosa, de 1956, já traz no título o elemento da natureza que molda e dá vida àquele que viria ser um dos mais importantes livros da literatura brasileira. Na seca e na aridez do interior central do país, o protagonista Riobaldo nos conta sua história e nos mostra as dificuldades de se viver num ambiente nem sempre convidativo. Em homenagem ao livro, foi criado em 1989 o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, para proteger parte do Cerrado descrito no livro. Após uma ampliação em 2004, a área total do parque é hoje superior a 230 mil hectares, abrangendo os municípios mineiros de Chapada Gaúcha, Formoso e Arinos, e Côcos, na Bahia.

Mar Absoluto – Cecília Meireles

Da secura do sertão para a abundância do mar. Tal como é infinita a vista do oceano é também a imaginação de Cecília Meireles, cujo poema “Mar absoluto” dá nome ao livro que a escritora publicou em 1945. Em versos como “Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças, mas outro, que se parece com ele como se parecem os vultos dos sonhos dormidos. E entre água e estrela estudo a solidão”, a autora usa o mar como alegoria para explorar seus próprios sentimentos. A figura poética empregada por Cecília já foi tema de pesquisas acadêmicas, como o artigo “De Viagem ao Mar absoluto: caminhos do mar em Cecília Meireles”. A doutora em letras Camila Marchioro buscou em três obras da autora mostrar “como o mar ceciliano se transfigura poeticamente até se tornar símbolo do Absoluto”.

Meninos do Mangue – Roger Mello

Neste livro infantil de 2001, o escritor e ilustrador Roger Mello encontra na natureza dos manguezais os elementos narrativos desta história que lhe rendeu dois prêmios Jabuti (Melhor Livro Infantil e Melhor Ilustração) e, anos mais tarde, também faria com que ganhasse o Prêmio Internacional Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil. Os manguezais são ecossistemas costeiros de extrema importância para a biodiversidade do planeta, mas que sofrem com a poluição. E foi esse o cenário que deu vida ao livro, cujo enredo se inicia com uma aposta entre a Sorte e a Preguiça para ver quem pescaria o siri com mais patas. A Preguiça perde e, com isso, tem que contar oito histórias para a Sorte, uma para cada pata do siri que esta tinha pescado.

O Cacaulista – Inglês de Sousa

Considerado um dos percursores da literatura realista-naturalista no Brasil, Inglês de Sousa é autor de “O Cacaulista: Cenas da Vida do Amazonas” (1875), seu primeiro romance, que assim como o restante de sua obra, descreve a relação entre a sociedade amazônica e a maior floresta do mundo. Nascido ele próprio na Amazônia, na pequena cidade de Óbidos (PA), foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em “O Cacaulista”, Sousa narra a história da rivalidade entre Miguel Faria e o tenente Ribeiro, ambos nascidos em fazendas de cacau da Amazônia, e sua rixa por um pedaço de terra. O retrato real do cotidiano amazônico nas obras de Inglês de Sousa foram objetos de livros acadêmico-literários, como “O romance da vida amazônica: uma leitura socioantropológica da obra literária de Inglês de Sousa”, de Mauro Vianna Barreto, e “Cenas da vida amazônica: ensaio sobre a narrativa de Inglês de Sousa”, de Marcus Vinnicius Leite.

O Poema Imperfeito – Fernando Fernandez

Neste livro de crônicas, cujo título completo é “O Poema Imperfeito: Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis”, o escritor carioca Fernando Fernandez, que é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), buscou na natureza a inspiração para demonstrar a relação entre a vida do ser humano em sociedade e a extinção de uma grande parte da biodiversidade. A obra, que já está em sua quarta edição, também foi adaptada em 2018 para um documentário.

O Tempo e o Vento – Érico Veríssimo

Assim como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa universalizaram o sertão, Érico Veríssimo apresentou o Pampa para o mundo em “O Tempo e o Vento”. Dividido em três partes, o romance narra a história de gerações das famílias Cambará e Terra, ao mesmo tempo em que conta a história do Rio Grande do Sul. Na obra, o escritor apresenta a geografia e a cultura do Pampa, único bioma brasileiro restrito a um estado e caracterizado por planícies e pastagens.

Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum

“Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de Órfãos do Eldorado: a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, mas também a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base da seiva da seringueira, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico.” É desta maneira que é apresentada “Órfãos do Eldorado”, livro de 2008 do escritor manauense Milton Hatoum, vencedor de múltiplos prêmios nacionais e internacionais e considerado um dos maiores autores brasileiros da atualidade, usando não raramente a geografia amazônica como pano de fundo para suas histórias.

Terras do Sem Fim – Jorge Amado

Nesta obra de 1943, o escritor baiano Jorge Amado conta a história de um conflito de terra na Mata Atlântica, mais especificamente no sul da Bahia, onde os irmãos Badaró e coronel Horácio da Silveira disputam um pedaço da floresta para conversão em plantação de cacau. “A mata dormia o seu sono jamais interrompido. Sobre ela passavam os dias e as noites, brilhavam o sol de verão, caíam as chuvas de inverno. Os troncos eram centenários, um eterno verde se sucedia pelo monte afora, invadindo a planície, se perdendo no infinito. Era como um mar nunca explorado, cerrado no seu mistério”, descreve uma passagem do livro. Embora escrito há quase oito décadas, a temática é bastante atual, face às taxas alarmantes de desmatamento no bioma.

Vidas Secas – Graciliano Ramos

Outro livro que ganhou lugar cativo na história da literatura nacional usa o sertão nordestino como pano de fundo e, por que não dizer, como protagonista. Neste romance de 1938, Graciliano Ramos narra a história de uma família sertaneja que foge da seca em busca de uma vida melhor. Ao longo da obra, o escritor descreve a secura aguda que marca a Caatinga nordestina, como neste trecho: “Encolhido no banco do copiar, Fabiano espiava a caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre”.



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