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domingo, 24 de janeiro de 2021

Artigo: O cego, na verdade, é aquele que se recusa a ver



O Brasil tem 6,5 milhões de pessoas cegas que não contam com suficiente acessibilidade no transporte, educação, lazer e nas ruas. Em todas as esferas da vida social e profissional elas estão em desvantagem.


Quando tive a oportunidade de trabalhar com cegos em instituições no Rio de Janeiro e em São Paulo percebi o quanto o preconceito é imenso e velado. Ouvi histórias sobre solidão, abandono... soube de cegos que foram roubados, empurrados e espancados. Outros diziam que eram “apagados” por pessoas que enxergavam, que, ao invés de falar diretamente com eles, perguntavam para as pessoas que estavam ao lado sobre seu nome, sua profissão... como se o cego, além de não poder ver, não pudesse falar ou ouvir, não existisse. De fato, muita gente preferiria que os cegos não existissem para não ter que lidar com a situação.


“Escrita das Névoas”, meu primeiro romance, faz uma reflexão sobre essa discriminação, esse preconceito e sobre o ódio gerado a partir desse olhar. É muito mais do que uma estória de superação, é uma tentativa de chamar a atenção das pessoas para o assunto e propor afeto e diálogo no lugar de tudo isso.


A protagonista do meu romance é uma advogada bem sucedida de São Paulo. De repente, ela é acometida por uma grave doença e, em cinco anos, fica cega. Perde tudo: amigos, trabalho... cai em depressão. No meu livro, Francesca é resgatada por uma tia descendente de italianos que mora em Ouro Preto, Minas Gerais. É por meio dos conselhos fortes da tia que a personagem resgata o sonho de ser escritora. Muitos ainda pensam que cego não pode ler e escrever! Isso é um mito e falo sobre isso no livro. Foi muito gratificante fazer minha personagem desabrochar e se tornar muito mais do que é permitido a um cego.


Pesquisei muito, conversei com muitas pessoas para construir uma história que não romantizasse a situação, mas mostrasse que é possível realizar muito mais do que se acredita ser possível para um cego.


Também discuto na obra a desigualdade entre gêneros e outros tipos de preconceito. Apesar dessa leitura crítica da realidade, o livro é poético, leve e delicado. Falo sobre as tradições, formas de preparo de alimentos dos imigrantes e sobre todo seu legado histórico, além das fábulas, mitologia, referências sobre música e artes por meio do encontro das personagens e suas histórias cheias de emoção, aventura, afeto e até paixão. A paixão fica por conta do entusiasmo da protagonista pela escrita e pelo conhecimento, e se mostra na relação entre ela e o pianista negro Josias, que se apaixonam e vivem uma história de amor, nesse cenário único de uma das cidades históricas mais bonitas do Brasil, entre patrimônio histórico e natureza exuberante.


Denise Courtouké*


Denise Courtouké é atriz, dramaturga e autora da obra “Escrita das Névoas”

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