Polícia resgata 39 pacientes de clínica de reabilitação em Candeias (BA) com denúncias de tortura e cárcere privado.
Gerente foi preso em flagrante; proprietário continua sendo procurado. Investigação apura ainda duas mortes ligadas à instituição.
Trinta e nove pessoas foram resgatadas na manhã desta quarta-feira (22) de uma clínica de reabilitação localizada na zona rural de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador. A Operação Terra Santa, deflagrada pela Polícia Civil da Bahia por meio da 20ª Delegacia Territorial (DT/Candeias), encontrou os pacientes em situação de cárcere privado, com denúncias de tortura, maus-tratos e administração irregular de medicamentos controlados.
O gerente da instituição, identificado como Charles Vinícius — apontado como braço direito do proprietário —, foi preso em flagrante durante a ação. Ele foi autuado pelos crimes de tortura e maus-tratos. Já o proprietário da clínica, identificado como Moisés, é procurado pela polícia para prestar esclarecimentos.
A clínica Terra Santa Videira presta serviços de assistência psicossocial e tratamento de dependência química. Segundo apurado, as famílias dos internos pagavam cerca de R$ 1.200 por mês pelo tratamento.
Cenário de tortura
Depoimentos colhidos durante a operação revelam um quadro de violência sistemática. Ex-internos relataram que os pacientes eram agredidos fisicamente, ameaçados, dopados e obrigados a realizar trabalhos forçados — como capinar o terreno da propriedade.
Os relatos também descrevem um espaço conhecido internamente como "quartinho do amor", onde pacientes afirmam ter sido colocados de cabeça para baixo enquanto sofriam agressões. Outra área investigada fica nos fundos da clínica, próxima a um lago, onde, segundo testemunhas, internos eram levados para sessões de tortura que incluíam supostos afogamentos.
Um ex-interno, que permaneceu na unidade entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, relatou ter tido uma arma apontada à cabeça e ter sido coagido a fumar maconha sob ameaça. A mãe de outro ex-monitor da clínica denunciou que o filho teria sofrido agressões e tortura antes de fugir para outro estado.
Duas mortes investigadas
As investigações começaram em 31 de dezembro de 2025, quando o interno Geovane Santana Lopes, de 31 anos, foi encontrado com queimaduras graves dentro da clínica. A instituição informou que ele teria causado as próprias queimaduras — versão contestada pela família. Geovane foi internado em uma unidade de saúde e permaneceu sob cuidados médicos até 4 de maio de 2026, quando morreu.
Apenas cinco dias depois, em 9 de maio, Iago Marques Formiga, de 33 anos — ex-paciente que passou a trabalhar como monitor e motorista da clínica —, desapareceu. O corpo dele foi encontrado 11 dias depois, carbonizado e com marcas de disparos de arma de fogo, às margens da BA-530, em Camaçari. O caso é investigado pela 4ª Delegacia de Homicídios (DH/Camaçari).
Ainda não há confirmação oficial de que as duas mortes estão relacionadas, mas a Polícia Civil apura a possível participação de envolvidos na clínica em ambos os casos.
O que diz a polícia
Segundo o delegado titular da 20ª DT de Candeias, Marcos Laranjeira, há indícios da participação do proprietário da clínica nos crimes investigados.
"As investigações já apontam indícios de participação do proprietário nos crimes de maus-tratos e tortura praticados contra os internos. Também apuramos denúncias de que a clínica possa ter sido utilizada para a execução de vítimas e investigamos a possível participação dos envolvidos em uma organização criminosa", afirmou o delegado.
Além dos homicídios e das denúncias de tortura, a Polícia Civil apura ameaça, lesão corporal, cárcere privado e maus-tratos supostamente praticados contra pacientes da instituição. Os 39 resgatados passaram por exames periciais realizados pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT), e os laudos devem subsidiar as investigações.
Defesa
A defesa jurídica da clínica afirmou, em nota anterior, que ainda não havia tido acesso oficial às denúncias e preferiu não comentar os casos. A reportagem tentou contato com a instituição, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

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