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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Artigo: Luciano Huck para o globo da morte

Não existe “a” democracia. O que se verifica, historicamente é “esta” ou “aquela” democracia. Em cada uma, as instituições, mecanismos e procedimentos democráticos apresentam idiossincrasias que  podem representar diferenças enormes nos padrões de convivência política e disputa, dissensos e consensos sendo formados de modo irreprodutível em outros lugares e sociedades.

Quando Alexis de Tocqueville (1805-1859) foi para os Estados Unidos, carregando consigo suas convicções monarquistas e se surpreendeu com as relações democráticas e republicanas que ali encontrou, deparou-se com uma democracia erigida por homens simples em busca do Eldorado, fugindo da opressão de que eram vítimas no Velho Mundo. E, adicionalmente, liderados por indivíduos que forjaram as bases do pensamento democrático moderno na lida quotidiana com a construção de uma Nação. Nos Estados Unidos, a democracia foi semeada, cultivada e cultuada nos corações e mentes libertárias, sonhadoras, sendo costurada quotidianamente. Isso é História. E na História, repetições são raras, se é que existem.

A democracia no Brasil, claro, não repetiu aquela experiência, apesar do deslumbramento de alguns membros da elite republicana local, que se arvoraram a batizar o país de República dos Estados Unidos do Brasil (tão ao gosto de José Serra, ex-embaixador), onde, de fato, só havia Brasil – de estado e de república, só uma pitada. As vicissitudes históricas e as características da população e das lideranças locais, limitando as decisões e ações e delimitando possibilidades, legaram o que hoje se tem, por aqui: um regime político democraticamente titubeante, com grupos em constante guerra entre si, por conta de um ímpeto de exclusão de difícil  remoção.

A busca de um “salvador da pátria”, como é sabido, marca com absurda frequência as eleições no Brasil. Talvez porque se esteja sempre buscando algo de fora ou de cima, já que dentro e aqui embaixo, entre nós, as escolhas parecem não levar aos resultados acalentados. Essa busca, evidentemente, não pode dar certo, como até agora não deu.

A ousadia de um Luciano Huck, bem como o apoio a seu nome, da parte, inclusive, de um ex-presidente ilustrado, é um fato emblemático nesse nosso arremedo de democracia. Não se trata de um político, pois nesse campo, o apresentador de TV é menos que nada. Ele não tem o que oferecer, a não ser o fato de ser uma pessoa nacionalmente conhecida. Não existisse a televisão, ele seria apenas um malabarista, domador de feras ou a mulher de barba do circo – jamais ganharia densidade eleitoral, mesmo com o circo circulando por todo o país.

Alguns dirão que a força e a beleza da democracia está, exatamente, em que qualquer um, nela, pode ser presidente (trata-se, afinal, de um mantra da democracia americana). E acrescentarão que Trump não é muito diferente de Huck: ambos surgem para a política vindos de universos estranhos a ela. Como Dória (e está dando no que se constata em São Paulo diariamente...).

Claro, Trump é um problema para a democracia americana, não há dúvidas. Mas Huck é problema maior para a democracia brasileira. Aqui as instituições democráticas e o aparato estatal não são (como nos Estados Unidos) robustos a ponto oferecer resistência expressiva aos ímpetos personalistas do Presidente da República. Aqui, qualquer aventureiro que chegue ao poder central quase tudo pode, principalmente se fizer um acordão do tipo “Com o Judiciário, com tudo...”.

Contra essa tendência do show business abocanhar a política, talvez seja conveniente revalorizar o que tem sido uma marca das disputas eleitorais no Brasil: a construção de carreira políticas da base ao topo, da vereança e/ou da prefeitura à Câmara dos Deputados e Senado, quiçá até à Presidência da República. Trajetórias políticas a partir das bases tendem a ser melhores vitrines nos momentos de escolha pelo eleitorado; elas também fornecem experiência de governo e de relacionamento com os eleitores e a sociedade. Por mais problemas que elas carreguem, não trazem para a cena política indivíduos que nesse campo não passam de sombras e paus ocos.

Quem sabe na lida política quotidiana nas cidades, tentando manter em pé o SUS, a educação básica e os próprios municipais, enfrentando a carência de recursos e a pressão popular, não estejam escondidos os que, sem serem nem se arvorarem em salvadores da pátria, possuem qualidade de que a democracia e a res publica estão carecendo no Brasil. Vale a pena procurar essas agulhas no palheiro, antes que ele se incendeie.

Quanto a Luciano Huck, que seja promovido, no circo: apanhe e motocicleta e vá para o fantástico globo da morte. E leve, para assistir o espetáculo, de camarote, Fernando Henrique Cardoso.

Valdemir Pires é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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